• Jéssica Paula

Como é mochilar pelo mundo de muletas?

Atualizado: Jan 13





Aos seis anos, tive uma infecção de garganta que migrou e infeccionou a medula. Perdi o movimento das pernas, a força do tronco, parei de andar. Precisei reaprender a sentar, a engatinhar, aprendi a usar cadeira de rodas, caminhar com andador, e, finalmente, com as muletas que, hoje, são parte de mim.


Meu primeiro desafio foi conseguir dar a volta no quintal de casa sem que minha mãe ajudasse. Quando conquistei tal façanha, não imaginava que esses seriam os primeiros metros dos mais de 164 mil km que percorreria pelo mundo.


Quando as pessoas me veem com um mochilão de mais de 70 litros nas costas e me apoiando em um par de muletas, o primeiro olhar é de espanto. A segunda reação é pensar que sou extremamente corajosa. Outros chegam a questionar se estou com a saúde mental em perfeito estado e sempre me discursam sobre o quão difícil deve ser viajar sozinha sendo uma mulher com deficiência física. Devo revelar algo desenganador: Não é.





É mais fácil e mais engrandecedor do que se imagina. Vivo a mesma rotina de qualquer viajante. A diferença? A mochila tem de ser bem pensada e mais leve, as trilhas talvez peçam mais pausas pelo caminho, e meu olhar tem um radar que, ao detectar problemas de acessibilidade, elege a gambiarra mais próxima que pode ser útil para manter a jornada.


Até o sentimento de pena que ainda está presente na imagem que se tem sobre as pessoas com deficiência se converteu a meu favor. Quando a mochila estava pesada, aparecia alguém oferecendo ajuda. Quando não havia vaga em dormitórios, aparecia alguém disposto a caminhar a meu lado para ajudar na saga de encontrar um hotelzinho disponível. Isso para não dizer da atenção cuidadosa que recebi mesmo quando fui detida ao entrar em uma zona de conflito no Sudão.


Há vezes que me sinto vivendo um rally sobre muletas, como em um dos terminais rodoviários do interior da Etiópia. Vamos ver quem passa primeiro por entre esses dois ônibus, pula três caixas de madeira, desvia de uma galinha, sem esbarrar na criança chorando e sem pisar naquela poça de lama.





Na maioria das vezes, não há como planejar trajetos mais acessíveis. Afinal, como prever ou evitar subir os degraus altos e estreitos de Machu Picchu? Qual seria a melhor opção? Alterar o roteiro e procurar destinos acessíveis seria uma resposta plausível. Mas não poderia permitir que duas pernas com deficiência me impedissem. Ora, tenho meus braços para isso. E se não os tivesse, sei que encontraria alternativas.


A verdade é que ser uma viajante com deficiência requer aprender a usar os recursos disponíveis. Se não tenho força nas pernas, sem problemas, caminho com a força dos braços. Se não consigo carregar mala de rodinhas, sem problemas, coloco uma mochila nas costas. Se a mochila está muito pesada, sem problemas, abro mão de variedade de roupas na permuta por um mochilão mais leve. Se há uma escada enorme no meio do caminho, tenho duas opções: ou eu me lamento por não poder subir essa escada, ou eu aprendo a subi-la. E aqui faço uma ressalva: reivindicar nossos direitos à inclusão e acessibilidade é também uma forma de subir escadas.


Sempre ouvi a palavra muleta como sinônimo de acomodação, de desculpa. No meu caso, uso elas para subir pedras, morros, montanhas e escadas rolantes. Também as uso para apagar as luzes, fechar portas e cruzar desertos. Para passar por barreiras policiais em meio a uma zona de conflito no Saara Ocidental, ou para conseguir carona no Marrocos. Para comer na Mauritânia, acompanhar a vida de ciganos romenos na Espanha, ou mergulhar no nordeste brasileiro.


Confesso que comecei a viajar para fugir do preconceito, e para não ser “apenas mais uma deficiente”. Na arte de se colocar em movimento pelo mundo, descobri que não é preciso quebrar suas muletas, é preciso aprender a usá-las. É entender que nossas muletas – dificuldades, desculpas, medos, problemas – também nos levam a lugares incríveis.