• Jéssica Paula

Perrengue no México

Atualizado: Jan 7




“É claro que eu quero a experiência completa”, disse quando me perguntaram se queria chegar pela entrada que fica logo em frente às pirâmides de Teotihuacán, ou se desejava fazer todo o percurso pelas ruínas, passando pela famosa"calzada de los muertos”. O nome em si já me atraía, então reforcei que não queria atalhos e faria o caminho completo desde a primeira entrada da zona arqueológica até as pirâmides, dois quilômetros de distância. “Já fiz caminhadas mais longas, claro que consigo”, pensei. Aham, claro.


Como tudo começou


Para quem está na Cidade do México, chegar até as pirâmides astecas é fácil. Há três opções. De ônibus, (mais em conta) em um trajeto de cerca de 50 minutos que pode ser mais longo dependendo do trânsito; com uma agência de turismo, cujo valor é uma média de 50 dólares e inclui um guia pelo passeio completo que pode durar até o dia inteiro; ou de uber em uma viagem de menos de 30 minutos até o local, se atentando também para os picos de trânsito (se for pela manhã, estará no contrafluxo).


Caso opte por ir de ônibus, é preciso ir até o Terminal Norte da Cidade do México, o que pode ser feito por meio da linha 5 do metrô (amarela) e descer na Estação Autobuses del Norte. É uma boa opção se você é desses que, como eu, adora sentir que está desbravando um lugar por si mesmo, sem ninguém te conduzindo a não ser o seu radar quando apita e diz “hum, acho que agora quero ir naquela direção”.


Eu tinha disponibilidade apenas no período da manhã. Então decidi ir de uber e não me arrependo. O valor não é discrepante em relação a muitas agências de turismo que prestam o serviço e vale muito como custo benefício principalmente se puder dividir a corrida com alguém ou se está com pouco tempo. Cada trecho ficou uma média de 30 dólares.

Para isso, acordei às 5h30. No hotel em que me hospedei, o carro chefe do café da manhã era carne ou frango, acompanhados de brócolis com pequenas fatias de presunto. O carboidrato fica por conta das massas de quesadillas, os nachos e, claro, não pode faltar guacamole, sour cream e molho picante para começar o dia. Para não ficar tão pesado, uma maçanzinha para arrematar. Isso porque no dia anterior comi um sanduíche que consistia em pão francês com linguiça temperada, feijão, guacamole, queijo, ovo, bacon e temperos desconhecidos. Sim, após tudo isso parti para as pirâmides.




Assim que cheguei, me perguntaram repetidas vezes através de qual portão eu desejaria entrar. A Cidade dos Deuses tem cinco entradas. Sendo que a de número 01 é a mais distante e passa por todas as ruínas. Foi aí que achei que teria tomado a melhor decisão.

Comecei minha caminhada do estacionamento até a entrada propriamente dita, onde são vendidos muitos souvenirs e objetos de decoração daqueles que vão te deixar com vontade de comprar uma nova mala só para garantir um pedacinho do México na sua casa. (Desafio um ser humano que gosta de história e cultura a não comprar nada por lá). Importante dizer que pessoas com deficiência não pagam a entrada - e vocês vão entender o motivo.


Despreparada que estava, comecei comprando um óculos de sol. Não paravam de me oferecer chapéus, mas é claro que estava achando que dominava tudo e não precisaria. Mal coloquei o pé e as muletas na tal da Calçada dos Mortos e senti um mal estar. A sorte é que já não estava tão distante dos banheiros. Voltei. Comprei água. Coloquei o café da manhã, no mínimo reforçado, para fora. Esperei um pouco até superar a sensação de tremor e suor frio. Minha pressão tinha caído e meu estômago não parava de jogar na minha cara que eu o havia sacaneado nos últimos dias.


Tentei continuar a caminhada novamente. Em vão. Tive de voltar ao banheiro. (Ah, e fica a dica: não deixem de levar papel higiênico porque não, lá não tem). Passei ao menos uma hora tentando me recuperar.


Ainda sem forças, mas já com um pouco mais de ânimo, retomei o caminho. “Vâmo lá, é só chegar até a pirâmide”, motivei a mim mesma. Ledo engano. Na verdade, assim que coloquei minhas muletas ali, entendi porquê não se deve menosprezar os deuses.


A saga mal tinha começado e não tardei para admirar a superior inteligência dos astecas em relação a mim. E não é que faz sentido uma pirâmide do Sol bem ali? Mesmo com uma temperatura amena, o sol batia tão forte que parecia machucar os olhos mesmo com os óculos escuros. Apesar de ter chegado antes das 8h, já estava com a pele ardendo, mesmo o dia não estando assim tão quente. “Porque foi mesmo que não trouxe um protetor solar?”

Ignorei não apenas o sol diante do local onde se cultua o Deus da nossa estrela maior, mas também o fato de que estava à cerca de 2.500 metros de altitude. Decidi pensar que tudo isso ainda era culpa da comida mexicana, que é muito saborosa, e continuei caminhando como podia.


Agora vai


Comecei passando pela Calçada dos Mortos e, de repente, no meio do caminho, uma escada com pelo menos dez degraus altos e estreitos, feitos de pedra. Apesar de essa zona arqueológica ser voltada para turistas, não há qualquer estrutra que uma pessoa com dificuldade de locomoção possa utilizar sequer para ter um pequeno apoio e se sentir mais segura ao tentar transpor tantas pedras.





Pois bem. Reparei que havia algumas ruínas do lado esquerdo dessa escada e foi nelas mesmo que me apoiei para conseguir passar pelos altos degraus, afinal “sou muito boa em encontrar soluções do tipo”, pensei. Quando finalmente subi, olhei para o horizonte e pensei “deu ruim”. Descobri que o caminho não era uma avenida asfaltada e plana como havia imaginado, mas sim uma sucessão de sobe e desce de escadas de pedras em cima de ruínas. E as pirâmides? Nem dava para ver direito tão distantes estavam.


Agora que já estava ali no meio não tinha muito o que fazer. Voltar atrás seria não apenas uma perda de tempo, como um atestado de derrota para meu senso de desbravadora. Decidi que continuaria ainda assim. “Já passei por coisas piores", disse a mim mesma.

O caminho tradicional, portanto, é assim: sobe-se os degraus de uma escada, caminha-se por cerca de três metros e então desce outra escada. Caminha-se por cerca de 150 metros sobre pedras irregulares e, então, mais escadas. Tudo isso até preencher os dois quilômetros que distancia o primeiro portão até as pirâmides.


Como um reforço positivo, caminhar sobre pedras, misturadas à grama fez com que eu precisasse firmar as muletas em uma força redobrada e ainda não podia tirar os olhos do chão enquanto caminhava para não pisar em falso. Isso, misturado à fraqueza e dor no estômago, me deixou com ainda mais tontura e enjôo. Além disso, nem todas as escadas tinham ruínas em suas laterais para que eu pudesse me apoiar.




A solução


Quando já estava pensando em me sentar nas pedras para então conseguir escalar degrau por degrau, um casal de rapazes me ofereceu ajuda. Agradeço eternamente aos deuses astecas pelo envio desses anjos. Um deles, chamado Ezequiel, ofereceu o ombro como apoio e me acompanhou a cada passo.




No meio do caminho, o sol, a altitude, as pedras irregulares e cheias de buracos também deixaram eles exaustos. Uma guia que cruzou nosso caminho e viu o desespero em nossa face, nos deu a dica de ouro. Apenas mais algumas ruínas adiante, virando à direita haveria um caminho alternativo. Ao desviar por ali, seria uma trilha de terra, grama e, para nossa alegria, sem escadas!


É claro que nos perdemos para alcançar essa via, já que não há qualquer sinalização ou uma rota clara para se chegar até lá. Mas além dos meus amigos mexicanos, outros turistas também viram minha cara pálida, muletas trêmulas e nos ajudaram a encontrar trilha.

A rota se mostrou melhor do que a encomenda e, antes mesmo que pudéssemos estar perto das pirâmides havia uma paradinha estratégica bem escondida, com uma máquina que vendia água e alguns snacks, obrigada Teotihuacán.




Paramos ali por 5 minutos e seguimos. Agora as paradas não representavam mais o impulso de um degrau ao outro, mas a evidência de que extrapolei na alimentação, que não estava preparada para a altitude e que não deveria ter desafiado o Deus Sol ao deixar de usar um bom protetor solar.


Ao chegar finalmente à base da pirâmide, fiquei orgulhosa, feliz e ao mesmo tempo indignada comigo mesma. Isso porque era possível ver dali dezenas de pessoas e carros chegando pelo portão que fica muito próximo às duas pirâmides, sem precisar percorrer essa saga inteira que vivi.


Bom, serviu ao menos para uma boa história para este texto, uma boa amizade e para alertar você sobre o Mal de Moctezuma.


Mal de Moctezuma


Reza a lenda que quando os espanhóis chegaram ao México, o imperador Moctezuma II acreditou que o conquistador Hernán Cortés era um Deus. No entanto, tudo o que os espanhóis fizeram foi destruir todo o império (inclusive é possível ver algumas ruínas sob as construções espanholas no centro da Cidade do México). Enfurecido, Moctezuma II lançou uma maldição que assegura que todo estrangeiro que pisar em solo mexicano será acometido de um mal estar desse nível aí que lemos acima.


Para os céticos, o fato é que a Cidade do México tem características que exigem cuidados para aqueles que não estão acostumados ao calor, altitude e comida condimentada. É fácil encontrar turistas com tonturas enjoos e há alguns dias sem conseguir comer.


Ainda assim, recomendo muito conhecer a riqueza cultural desse país incrível onde, com certeza, eu voltaria. Afinal, porque não conferir de perto se a profecia é verdadeira?