• Jéssica Paula

Sem forças para andar na Polônia

Atualizado: Fev 19

Esse é um erro que nem só os amadores cometem. Apesar de ter já percorrido mais de 150 mil quilômetros sozinha pelo mundo, fui alvo desse equívoco durante a viagem que fiz à Polônia: o peso da bagagem!


Me dedico um bom tempo antes de cada viagem estruturando a mala. Ora, partindo do pressuposto de que para caminhar preciso manter minhas mãos ocupadas com as duas muletas, não posso carregar uma mala comum - daquelas de rodinhas, por exemplo. É por isso que carrego uma mochila nas costas para onde quer que eu vá.


É claro que para carregar uma bagagem com tudo o que eu preciso por dias ou até meses exige planejamento. Antes, embarcava com uma mochila grande e capacidade de peso muito acima da que eu consigo carregar, ou seja um verdadeiro trambolho nas costas.


Hoje, a mochila que utilizo é bem completa em suas possibilidades de ajustes, tem capacidade de até 50 litros e com tranquilidade consigo carregar meus 12kg de bagagem, peso máximo que levo com qualidade e sem me faltar o ar e desmaiar no meio do caminho.


A primeira viagem que fiz com essa nova mochila durou 23 dias pelo leste europeu. Essa seria, então, sua prova de fogo.


Meu roteiro de viagem começaria pela Áustria, faria um desvio para a Noruega, e depois voltaria para o leste europeu, na Polônia, seguindo por mais outros quatro países. O problema é que nessa viagem eu estava determinada à trazer presente para minha família inteira.


Pior que isso. Tive a brilhante ideia de comprar as lembrancinhas ao longo da viagem, o que significa que o mochilão foi ficando cada vez mais pesado.


O dia em que eu não conseguia mais andar


Meus dias na Polônia forem bem intensos. Visitei uma mina de sal que demandou que eu descesse nada mais, nada menos do que 800 degraus por baixo da terra, além de ter passado um dia inteiro pelos campos de concentração nazistas de Auschwitz, debaixo de chuva e sobre lama. Essas duas experiências, alinhadas aos acúmulos de uma viagem que eu nada dosei nas caminhadas, deixaram meus braços extremamente cansados.


A mina de sal, por exemplo, visitei no mesmo dia em que pegaria um ônibus à noite para a cidade de Budapeste, na Hungria. Foi a conta de voltar do passeio, comer um sanduíche - um kebab maravilhoso para ser mais específica - ir até o hostel, tomar um banho, fazer a mochila, colocar ela nas costas e ir até o terminal de ônibus.


Por um momento, enquanto me arrumava, cheguei a pensar se era a decisão mais acertada partir naquela mesma noite, já que estava muito cansada da jornada de três dias intensos no país. Mas, claro que não iria permitir me abater e dei continuidade ao plano.


Coloquei a mochila nas costas, amarrei ela como deve ser feito para equilibrar o peso no meu corpo, desci as escadas do hostel, saí na praça principal de Cracóvia e olhei para os lados. Ali, eu tinha duas opções: virar à direita e pegar um metrô de superfície, conhecido como Tram, que me levaria direto para o terminal, ou ir caminhando pela praça, cruzando as vielas do centro histórico da cidade - que é muito gostoso durante o verão - até chegar, cerca de 20 minutos depois, no meu destino.




Claro que optei por ir caminhando. Afinal, economizaria com passagem e de quebra viveria meus últimos momentos na cidade polonesa que tanto me encantou.


Fui aos poucos, olhando para as lojinhas, restaurantes e turistas até que cruzei o portão que divide o centro histórico do restante da cidade. A partir dali, segundo meus cálculos, não faltariam mais do que dez minutos para atingir o terminal.





Eu só não contava que - ainda mais com a parte gostosa da cidade tendo ficado para trás - meus braços começariam a sentir fadiga. Ali mesmo, eu já não conseguia mais parar de pensar no arrependimento de ter colocado tanta coisa na mochila, logo no início da viagem.

A partir de então, começou minha dificuldade em respirar. A cada cinco passos precisava parar, descansar as mãos que já estavam ardendo de fazer força para equilibrar tudo isso nas muletas, enxugar o suor, mesmo estando próximo à meia noite, e seguir por mais cinco passos.


Fiquei nesse processo por pelo menos 15 minutos, quando finalmente avistei o terminal de ônibus. Atravessei a rua apreensiva, me certificando de que não viria nenhum carro. Imagine só o olhar das pessoas ao verem uma menina de muletas, custando carregar uma mochila nas costas, atravessando a rua. Na hora me vi naquelas cenas de desenhos animados onde colocam uma idosa tentando atravessar a rua lentamente com um andador (tem uma cena do primeiro filme do Harry Potter exatamente assim), enquanto um motorista desenfreado se esforça para não atropelá-la.





Continuei concentrada em meu esforço. Cada passo começou a parecer que eu estava carregando uma pessoa adulta sobre meus ombros. Cada vez que erguia meu corpo junto com a mochila, sentia cada músculo e essa tensão ia percorrendo meus braços até chegar nas mãos que continuavam, agora ainda mais, vermelhas e ardendo por conta do atrito com as muletas.


Foi então que, poucos segundos após ter acessado a calçado do lado do terminal de ônibus, uma moça me abordou. Ela surgiu do meu lado e eu não entendi bem o que queria dizer, por conta de seu inglês polaco. Tirei os fones do ouvido, que naquela altura já não tocavam nada, para ver se entendia. No primeiro momento, achei que ela estivesse pedindo informação. Como costumo caminhar sozinha inclusive à noite nos lugares, muitos acham que sou uma habitante da cidade.


Mas não era exatamente o caso. Ela me perguntou, meio sorrindo e com vergonha, se eu precisava de ajuda. Eu, sem forças para falar, agradeci e gesticulei sorrindo, com as palmas das mãos voltadas para cima como quem diz "não tem muito o que fazer”. Ela também sorriu, mas ainda não estava satisfeita. Perguntou se eu tinha certeza, ainda tentando procurar uma saída, sem ser invasiva. Após eu responder que sim, que já estava praticamente na porta do terminal, ela parou de insistir e me perguntou se eu, então, aceitaria como presente uma rosa que ela segurava na mão.


Eu aceitei e, antes que eu pudesse segurar a rosa com a mão, de um jeito meio desajeitado ela apontou para minha mochila, querendo perguntar se poderia colocar ali, em algum bolso, assim ficaria mais fácil para eu continuar caminhando. Rapidinho ela achou uma entradinha na mochila, encaixou a rosa, e eu fiquei emocionada e agradecida.





Ao se certificar de que a flor não cairia, ela se deu conta de que seu Tram logo se aproximava. Tentando ser rápida, ainda desajeitada, apontou para ele me avisando de que estava na sua hora e se despediu me desejando muita sorte. Ela entrou no Tram e eu entrei no terminal. Peguei meu ônibus e fui admirando a rosa até a Hungria.