© 2016 por Jéssica Paula 

December 7, 2016

Please reload

A Bangladesh da África

May 26, 2016

 

Esse é o apelido dela. Bangladesh. Segundo os vizinhos, criadores de tal nome substituto, ela não é negra. Tem cor de terra. Avermelhada. Cor de gente que vem de Bangladesh. O pai deve mesmo ter vindo dessas bandas de lá. Não se sabe ao certo. A mãe é sul-sudanesa.

 

   Ela passa o dia em meio à menineira da vizinhança. Caçando o que fazer. Quando a estrangeira aqui chegava na casa onde me hospedei, vinha um aglomerado deles gritando atrás “Cauáia! Cauáia!”. “Branquela! Branquela!”. Bangladesh sorria. Ela sorri muito. Mas é muito tímida e se limita a contemplar as algazarras dos amiguinhos.

 

   Em uma tarde, sentei na porta da rua, na cadeira de fios azuis de meu anfitrião. A rua não tem nenhum movimento de carro. Vez ou outra passa um triciclo levantando poeira. Não há nem calçada, nem asfalto. Tumulto por lá é criança correndo de um lado para o outro e mulher carregando tambores d’água apoiados na cabeça. Estava escrevendo em um caderninho quando Bangladesh foi chegando. Sozinha. Com o dedo indicador na boca, tracejou um sorriso banguelo. Gesticulei com o braço, pedindo que ela chegasse mais perto.

 

   Ela abriu mais o sorriso, sem tirar o dedo da boca. Peguei uma página em branco do bloquinho, desenhei um boneco, desses que criança compõe com pauzinhos, coloquei um rosto redondo com carinha feliz, e dei para ela. Bangladesh tirou o dedo da boca, e chegou bem perto de mim para ver melhor o desenho. Abriu, dessa vez, sorriso ainda mais largo.

 

   Logo, incumbi a ela mesma a tarefa. Entreguei-lhe caderno e caneta para que desenhasse algo. Ela se embaralhou na hora de pegar a caneta, tentou usar as duas mãos em diferentes posições. Balançou a cabeça em sinal negativo. Ela não sabia o que era o instrumento.

 

   A família não tem dinheiro para pagar escola. No Sudão do Sul, mesmo as escolas que são consideradas públicas tem de ser pagas. A mais barata custa 50 dólares ao mês.

Optei por intervir. Peguei sua mão e ensinei como segurar a caneta. Entreguei-lhe novamente o bloquinho, ainda segurando sua mão, fizemos juntas seu primeiro rabisco ali. Bangladesh, então, sorriu, sorriu muito, de um riso que não se podia parar. E eu, chorei.

 

Please reload