© 2016 por Jéssica Paula 

December 7, 2016

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Uma vítima de Joseph Kony

June 2, 2016

Ela é uma senhora. Tem 70 anos de experiência. Dois filhos, dois netos e três bisnetos. E duas orelhas a menos. Sim, porque lhe foram arrancadas à faca, uma semana depois de as tropas do governo de Uganda terem passado a noite pelas redondezas, durante a caçada ao LRA - milícia liderada por Joseph Kony - um dos 10 mais procurados do mundo pela Corte Penal Internacional. 

 

Os rebeldes de Kony ousaram chegar às oito da manhã. “Eles não têm para quê ter medo”, diz Atara. Não precisaram nem invadir a cabana. Estavam todos do lado de fora. Atara, agachada no quintal, descascava mandioca para o almoço. Levantou-se depressa quando viu eles chegarem. Só levantou. Ao projetar o primeiro passo para longe, bateram com a arma em seu quadril. Ajoelhada no chão, um rebelde gritava em seu ouvido “o que você ouviu? Você recebeu eles aqui! Eu sei que você ouviu! Fala o que você sabe!”. E como Atara de nada sabia, bateram de novo em seu quadril, chutaram suas costas, os joelhos, e com uma faca cortaram as duas orelhas. Atara desmaiou.

 

Acordou em sua cabana com um curandeiro banhando em ervas seu rosto. O filho mais novo chorava em cima do mais velho, distendido no chão, sem vida.

 

Atara perdeu um filho e parte da audição. Nunca recebeu atendimento médico além de comprimido para dor e muita, muita erva. Nunca mais caminhou da mesma maneira. Sente dor nas costas todos os dias. E a culpa não é só da velhice, mas ela prefere acreditar que sim. Zelar pelo rancor não é a melhor maneira de seguir em frente. “Não sei nem o que pensar de Kony. Só agradeço porque ele não vem mais aqui”, diz ela.

 

Quando recuperou a força nos joelhos e pôde caminhar, foi direto ao túmulo do filho. Hoje, Atara conta com nenhuma lágrima no rosto. É uma mulher firme. Seu gestos não passam em branco. Traços fortes, e mãos ligeiras, mas de coração sensível. Pediu desculpas pelas condições em que ela vive, não por viver assim, mas por receber uma estrangeira desse jeito. Só não poderia deixar de oferecer qualquer coisa que tivesse em casa. Havia comida. Arroz e feijão bem cozidos. Pede desculpas de novo, porque não há colher. Amassa o arroz e o feijão com as mãos. Estava delicioso. 

 

No cenário em que o “Deus da guerra” deixou milhares de pessoas mutiladas, Atara é mais uma. Homens e mulheres tiveram lábios arrancados, mãos serradas, nariz cortado. Quando as vítimas são reconhecidas pelas autoridades, elas recebem certificado da Anistia Internacional. Isso é tudo.

 

 

 

 

 

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